No XVII, Monthly Weeklies

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Chad Wellmon, no livro Organizing Enlightenment: Information Overload and the Invention of the Modern Research University, retrata a “explosão de periódicos” na segunda metade do século XVII. O tipo de veículo que mais se prolifera nesse período lembra a variedade de escopo do jornalismo conteporâneo:

The periodicals that expanded most rapidly in the first third of the century were the so-called moral weeklies and their related print forms often referred to by contemporary scholar as “trivial literature.” Addressed to a broad range of readers to civic engagement and Christian virtue. In contrast to the more internal focus of the scholarly periodicals, which were intent on maintaining the unity of the empire of erudition, these periodicals focused on a wide range of topics, including politics, the family, moral education, and civic life, and a broad set of genres, such as satires, moraling tales and fables, allegories, and published letters. (p. 65)

Essa “literatura trivial” cobre, em termos atuais, debates populares, comportamento e cultura. Seu apelo à moral, à cultura e ao intercâmbio de ideias é um apelo à vida em sociedade — parte de pressupostos sobre a esfera pública. Aprofundar essa comparação seria uma boa pesquisa em história do jornalismo.

Publicidade da Ausência

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Propagandas baseadas não na exibição do produto ou da marca, mas que trabalham eludindo (não totalmente, mas em grande intensidade) esses elementos centrais e se sustentando no ambiente de disseminação da mensagem, que deve garantir que ela seja completada. Ontem o New York Times publicou um exemplo disso: o McDonald’s lançou uma campanha que não cita nem seu nome nem hamburgueres.

Uma mulher vestida de amarelo sobre um fundo vermelho (as cores acabam sendo a única referência mais explicíta à marca) induz o espectador a procurar no Google sobre o restaurante em que a Coca-Cola tem um gosto melhor. Como essa é uma percepção comum sobre o McDonald’s, a pesquisa leva o usuário para páginas de busca com essa informação e, mais importante, para opiniões de outras pessoas sobre essa características que seria única.

NY Times registra:

The ads, which started running last week, are meant to play on how teens and twentysomethings use their phones while watching TV, while also acknowledging “how they’re discovering information” they trust, said Deborah Wahl, chief marketing officer of McDonald’s for the United States. “They are very influenced by word of mouth and what their peers say,” she said.

O anúncio mimetiza a forma como os jovens (e como os mais velhos também, por que não?) encontram informação — podemos dizer: via buscas rápidas, constatações superficiais, mas difundidas, e conclusões balizados pelas redes sociais? Há consenso de que é assim que, hoje, lidamos com a internet.

Essa notícia me recordou que em março a Heinz produziu uma campanha proposta (e recusada) na série Mad Men, em que o ketchup e a mostarda não apareciam, só o sanduíche, a batata e a frase “pass the Heinz”. A ideia do protagonista de Mad Men, Don Draper, era ressaltar que a experiência desses elementos exigia o produto da empresa, e o público saberia disso e seria levado a preenchê-la.

Tanto nesse caso quanto no anterior, a publicidade se justifica por uma espécie de rede proteção simbólica — é assim que os códigos são decodificados, podemos ter certeza de que, sem enviar o signo, ele será implicado pelos demais, como certa palavra pode ser sugerida no contexto de um artigo.

 

O Dia a Dia do Jornalismo de Dados

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O jornalista da The Economist Idrees Kahloon descreveu no Quora como é a rotina de um jornalista de dados:

(…) me deixe explicar o ciclo de vida de uma reportagem de dados:

  • Criação da ideia (é a parte mais difícil)
  • Identificar as fontes de dados
  • Limpar e organizar os dados (em geral excruciantemente tedioso)
  • Explorar os dados, com frequência um pouco sem objetivo
  • Testar as hipóteses tendo em vista conclusões interessantes ou montar um modelo estatístico (em geral apenas explanatório; modelos preditivos são muito mais difíceis)
  • Registrar as suas descobertas, o que sempre é suplementado com reportagem convencial
  • Por fim, submeter aos editores e checadores antes de publicar

Em um dia típico, o jornalista de dados não fará todas essas coisas — mas ele ou ela fará algumas delas. Eu gosto de tentar ler as notícias antes do trabalho: uma promissora matéria pode vir à mente. Quanto eu começo a trabalhar, eu posso tentar prosseguir algumas ideias anteriores ou a sugestão de um editor, procurando na internet ou questionando acadêmicos que conheço. Com sorte os dados podem ser baixados facilmente — senão eu terei de programar um scraper [aplicativo de mineração de dados] para puxar da internet as informações necessárias.

A limpeza dos dados toma uma boa parte do meu tempo. Irritantemente, você não saberá se a sua ideia é jornalisticamente frutífera até que você tenha terminado de limpar e iniciado a sua análise. Por vezes você gasta algumas horas em uma ideia, apenas para perceber que inviável. Mas é a vida.

Assim que eu acho alguma coisa verdadeiramente interessante, eu tento incorporar a ela outros conjuntos de dados se necessário e tento montar um modelo útil dos dados — geralmente uma regressão [técnica estatística que analisa a relação entre variáveis]. Isso só ajuda a explicar os dados — não serve usualmente para trabalhos preditivos, que requerem bem mais pensamento para modelar com precisão. Depois de chegar se os meus achados são estatisticamente robustos, eu escrevo sobre eles como qualquer outro jornalista faria.

Vê-se que são necessárias habilidades geralmente fora da formação do jornalista: programação e estatística.

Entrevista: Sitiar o Entrevistado

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Simon Raven e Martin Shuttleworth, da Paris Review, no abre da sua entrevista com o escritor Graham Greene, descrevem assim o seu entrevistado: “the man whom we had come to besiege” — o homem a que viemos fazer cerco. Essa metáfora bélica me soa uma definição forte e sutil para o ato de entrevistar.  Os jornalistas rodeiam as suas fontes, cercam-lhe as saídas, invadem-nos; os entrevistados, do outro lado, são os que resistem, os que confiam em víveres armazenados, muralhas, armadilhas.

A imagem se adapta bem a alguns casos reais. Gay Talese, para escrever o perfil de Frank Sinatra, conversou com todos nos arredores dos muros, mas não conseguiu por os pés na cidadela. Hilda Hilst foi cercada inúmeras vezes por jornalistas e, a cada vez, parecia que lhes entregava uma personagem, seu império real nunca devassado. Variando de intensidade e adequação, podemos representar vários outros casos…

Isso ecoa uma metáfora um pouco diferente, expressa pelo seriado The Newsroom: “A maneira pela qual uma campanha política deve ser coberta: como um exame cruzado [inquirição da testemunha trazida pela parte adversária] em um tribunal”. A situação é também de acuamento. A entrevista nesses casos seria uma circunstância da qual não se poderia extrair certa hostilidade básica.

***

É sintomático que a entrevista de Raven e Shuttleworth com Green não seja hostil nem consiga acuar o adversário. Em pelo menos dois momentos, os entrevistadores se dão conta de que não podem insistir:

(the telephone rang and when, after a brief conversation, Greene came back to his long low seat between the electric fires and topped up the glasses, the conversation was not resumed, for the point, we thought, if not implied, was difficult for him to discuss.)

Os repórteres notam que algo era “difícil de discutir” ao escritor, e param. Outra:

(The telephone rang. Mr. Greene smiled in a faint deprecatory way as if to signify he’d said all he wished to say, picked up the instrument and spoke into it.)

O sorriso do escritor lhes diz que o que disse até então seria tudo o que diria. O entrevistado ergue de repente muralhas mais altas, que desesperam qualquer cerco, e os exércitos jornalísticos debandam.

Só resta a eles observá-lo falar ao telefone:

Hello? Hello Peter! How is Andrea? Oh, it’s the other Peter. How is Maria? No, I can’t do it this evening. I’ve got Mario Soldati on my hands—we’re doing a film in Italy this summer. I’m co-producing. How about Sunday? Battersea? Oh, they’re not open? Well, then, we’ll go to my pleasant little Negro night club round the corner …

Mas talvez possamos manter a metáfora, somente que em cada caso variarão as intensidades e adequações.

***

Curiosidade: quando entrevistei o cineasta Arthur Omar para o programa Rumos Cinema e Vídeo 2009-2011, ele também atendeu uma chamada em meio à entrevista — e insistiu que fosse deixada na edição. Deixamos.

Roberto Kaz, Anáfora e Ópera

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Roberto Kaz fez uma série de escolhas criativas na reportagem “Quase Todos Presos“, para a revista piauí deste março de 2017, que narra os imbróglios da corrupção em Foz do Iguaçú. O lead descreve sem descrever, atiça:

Essa é uma história brasileira. E, por ser uma história brasileira, é uma história que mistura dinheiro público e privado. Essa é a história de uma cidade — Foz do Iguaçu — em que um prefeito, acusado de corrupção, acaba afastado do cargo. Mas é também a história de outro prefeito, ficha suja, que concorre ao terceiro mandato, é eleito e tem a candidatura indeferida antes de ser empossado. Essa é uma história brasileira e, por ser uma história brasileira, é uma história que mistura Polícia Federal, produtos Mary Kay e o cartunista Ziraldo.

O uso da anáfora (repetição das frases, que vai guiando o parágrafo) e o inaudito das ocorrências citadas, se somam para gerar uma sensação de absurdo. O trecho apela para um clichê (um vira-latismo no sentido de “só no Brasil uma coisa dessas”), mas mesmo assim tem força e não cai no nariz de cera, pois informa.

Alguns parágrafos adiante, ele reelabora o motivo com uma comparação:

Se essa história fosse uma ópera, baixariam as cortinas e terminaria, aqui, o primeiro ato. Ou, por outra: talvez houvesse, antes do fim, um breve monólogo. Seria um solilóquio funesto, daqueles que antecipam um desastre, proferido por um mendigo, um cego, uma ama ou uma bruxa. A orquestra tocaria um acordo macabro, as luzes se acenderiam e o público desfrutaria do intervalo.

Mas, como foi dito, a história é brasileira. Troca-se o monólogo por uma conversa grampeada; troca-se o mendigo por um político; e troca-se o desastre por uma licitação.

O tema da ópera vai se repetir de tempo em tempo marcando as mudanças de seção da matéria. A troca dos elementos próprios desse gênero pelo prosaico da política é humorístico no mínimo e chega ao surreal:

Na ópera clássica, o segundo ato é geralmente encerrado com um trecho musical grandioso, chamado concertato. Os personagens principais voltam ao palco para anunciar, em melodias distintas — e por vezes simultâneas —, uma tensão a ser resolvida no próximo ato. Se o segundo movimento dessa história terminasse com a posse de Ivone Barofaldi, o concertato iguaçuense seria entoado por ela, pelo prefeito afastado, pelo quarteto de delatores e pelo servidor Roberto Basílio de Oliveira — que a essa altura já não estava mais ligado à trama, apesar de ter sido o personagem que deflagrara a história.

São recursos interessantes, que tem até um ar de crítica artística, já que expõem a estrutura operística (e deixa a ideia: como seria montar uma ópera com esse assunto ou similar, de fato?). Por outro lado, é um expediente frívolo: retirado do texto, não lhe faz falta; não acrescenta quase nada aos fatos que reúne. É de se pensar como usar algo nesse sentido em uma reportagem de forma mais orgânica e necessária.

PA | “Como uma Resenha de ‘Como um Romance'”

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Post de apoio para o texto “Como uma Resenha de Como um Romance“, sobre o livro de Daniel Pennac com este nome. Esta postagem esclarece duas referências:

  • No terceiro parágrafo, o poema de Fernando Pessoa citado é “Liberdade”:

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…

  • Na última frase deste parágrafo, a menção ao filósofo Michel Foucault refere-se a essa frase, de “Entretien sur la prison: le livre et sa méthode”:

“A única marca de reconhecimento que se pode testemunhar a um pensamento como o de Nietzsche é precisamente utilizá-lo, deformá-lo, fazê-lo ranger, gritar.”

Complementos e reelaborações desse texto também serão postadas nos blogs daqui.

Tarefa da ‘Enciclopédia’, Tarefa do Jornalismo

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Um trecho do “Discurso Preliminar” à Enciclopédia ou Dicionário Razoado das Ciências, das Artes e dos Ofícios, editada pelos filósofos iluministas Denis Diderot e Jean le Rond d’Alembert, que é útil à prática da reportagem:

(…) foi necessário dar, a cada matéria, uma extensão conveniente, insistir no essencial, negligenciar as minúcias e evitar um defeito bastante comum, o de insistir no que só exige uma palavra, provar o que ninguém contesta e comentar o que é claro. Não poupamos nem prodigamos os esclarecimentos. Julgar-se-á se eram necessário em todos os lugares em que os colocamos e que teriam sido supérfluos onde não serão encontrados. Tivemos ainda o cuidado de não acumular provas, quando julgamos que uma única argumentação sólida seria suficiente, e as multiplicamos tão somente nas ocasiões em que sua força dependia de seu número e da concordância entre elas. [p. 229]

extensão conveniente, o insistir no essencial, o negligenciar as minúcias — todos são atributos que podem se dar à busca da objetividade (podemos questionar como avaliar o que é ou não é “minúcia”). O esclarecimento na medida do que é preciso também se adequa à prática jornalística, que parte também da ideia de ser rápida, informando nos espaços de um cotidiano de trabalho. A última parte pode falar aos jornalistas investigativos, de artes ou de ideias: a sustentação de uma denúncia, de uma crítica ou de um ensaio exige equilibrada carga de comprovação. É necessário saber se se onera o leitor em demasia.

seleta #1: Melhores Textos de Janeiro e início de Fevereiro

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Alguns artigos desse começo de ano que marcaram minha atenção. Se você por algum motivo tiver curiosidade sobre o que mais eu li, tudo o que eu leio (ou deixo pra depois) e favorito pode ser visto no meu perfil do Diigo.

Sigamos, então:

Sex doesn’t sell any more, activism does. And don’t the big brands know it“, de Alex Holder, no Guardian — em que lemos como a “responsabilidade social” ou a aplicação das empresas a causas que geram retorno publicitário positivo (questões de gênero, por exemplo) está se tornando ubíqua. A estratégia, é claro, não implica em um comprometimento de fato dessas organizações (marcas diferentes sob um só guarda-chuva podem agir em contradição, como é o caso da Unilever), mas o efeito autocondescente sobre o público é hipnotizante: “If a brand can allow me to carry on living exactly as I was and fuel my social conscience then they can have all my pocket money”. O diagnóstico demanda uma nova crítica dessas posturas comerciais.

Como mentiras sobre a morte de Marisa buscam evitar empatia com Lula“, de Leonardo Sakamoto, no seu blog — em que o jornalista fala do que seria uma campanha orquestrada para manter a rejeição de Lula no lugar. Interessante este trecho em que há uma análise do como se faz a política atual como um todo:

Ao longo dos últimos anos, entrevistei profissionais contratados por políticos para construir ou desconstruir candidaturas através de ação coordenada em redes sociais. E, ao contrário do que acredita o senso comum, não são robôs usados para xingar tresloucadamente que causam os maiores impactos, mas ”fazendas” de perfis falsos que parecem reais e são administradas por anos, agindo de acordo com pesquisas comportamentais.

How I Rewired My Brain to Become Fluent in Math“, de Barbara Oakley, no Nautilus — em que a ex-tradutora-intérprete do russo, amante das letras, que se tornou engenheira após a casa dos vinte conta como foi esse processo e fala sobre “aprender a aprender” (ela se foca no treinamento intensivo e na repetição, se opondo a pedagogias que se restrinjam à compreensão global). O texto meio que foi lançado para anunciar o curso de Oakley no Coursera — Learning How to Learn, que ocorre ainda por mais três semanas, o qual eu estou tentando fazer nos espaços da rotina e que já me ensinou uma coisa ou outra.

The Movie with a Thousand Plotlines“, de Raffi Khatchadourian, na New Yorker — em que se comenta sobre o futuro do cinema e do audiovisual, um futuro que será marcado pela interatividade: o espectador pode, em níveis cada vez mais inovadores, decidir o rumo das histórias, desde escolhendo cenários e desenvolvimentos da narrativa até, apenas sendo monitorado pelo sistema (movimentos de retina ou outros dados aferidos do corpo; ou ainda um perfil construído com as informações adquiridas pelas máquinas ao longo do tempo), movimentar a história. O texto deixa claro como questões de agência e personalidade entram em jogo aí.

Isaac Asimov: How to Never Run Out of Ideas Again“, trechos selecionados por Charles Chu, no Medium — em que se faz o que o título promete: são trechos do diário de Asimove em que ele discorre sobre como se manter criativo o tempo todo. São algumas regras, esquematizadas por Chu: nunca pare de aprender, não pare quando ficar travado, não desista frente ao medo da crítica alheia, baixe seus critérios, produza mais e se esforce sempre o máximo.

Atenção às Demandas do Debate

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O professor e pesquisador Pablo Ortellado apontou a prevaricação jornalística na cobertura da morte do juiz Teori Zavascki, feita contraditoriamente por se querer responsável:

Um ministro do Supremo, relator da Lava Jato, morre num acidente de avião, dias antes de homologar uma delação que incriminaria dezenas de políticos. As pessoas começam a suspeitar que o ministro pode ter sido assassinado. O consumo de notícias sobre o caso dispara, justamente por causa da suspeita, mas a grande imprensa, por “responsabilidade”, não menciona a hipótese de que o avião possa ter sido sabotado enquanto não surgem evidências concretas. Ela trata do assunto como se a possibilidade não pudesse ser discutida a sério, desprezando a preocupação do país inteiro. Enquanto isso, o acesso à má imprensa dispara, já que só ela está discutindo diretamente aquilo com que todo mundo está preocupado.

O efeito de não dar espaço à hipótese de sabotagem, por intenção de não valorizá-la indevidamente, acaba, de forma oposta, a potencializando:

É sempre assim. Surge um boato, a imprensa séria apura, não surge nada sólido e ao invés de fazer uma matéria dizendo “boato nas redes sociais não procede”, ela simplesmente não diz nada, entregando audiência para a má imprensa. Essa postura é pura arrogância. A imprensa supõe que (ainda) é a detentora da verdade social e que se ela não deu, a coisa não existe. Mas se isso algum dia já foi verdade, seguramente não é mais. É assim que ela alimenta o refrão, repetido à esquerda e à direita, de que “isso a imprensa (a Globo/ a Folha) não mostra!”. A descrença na grande imprensa é pelo menos em parte resultante desta postura arrogante. A culpa não é só do algoritmo do Facebook e da polarização. A imprensa precisa atender, sem petulância, a preocupação das pessoas comuns. Está na hora da boa imprensa discutir a possibilidade de sabotagem no avião, mesmo que seja para dizer que é uma hipótese improvável e sem grande apoio em evidências. É possível fazer isso a sério e com responsabilidade. Não só é possível, é necessário.

Existe, portanto, uma necessidade do desmentido.

Note-se que pelo menos Elio Gaspari sugeri uma investigação especial do caso: “Nada a ver com teoria da conspiração, trata-se de dúvida mesmo”.

A propósito, comentei sobre a tal polarização, pelo viés do embate direita x esquerda.

***

Relacionado: também analisando a influência da imprensa na difusão de desinformação, escreve Dairan Paul:

Em que bases se assentam os rumores? O jornalismo não estaria na hora de fazer o seu mea culpa? Para Moretzsohn (2014, p. 168), o erro está na ênfase de que informações provêm cada vez mais de pessoas próximas, e não de instituições jornalísticas: “não seria o caso de indagar de onde ‘família, amigos, colegas’ retiram as informações em que ‘as pessoas’ confiam?”. Os rumores não necessitariam de um mínimo de verossimilhança para que se acredite neles? Por exemplo, a afirmação de alguns manifestantes pró-impeachment de que imigrantes haitianos vieram ao Brasil para votar em Dilma é, certamente, absurda. Mas quantas vezes a cobertura jornalística tratou a imigração com um enquadramento positivo? Quantas vezes o estrangeiro não foi representado como um “outro” perigoso, que traria problemas ao país?

Pautar-se e Submeter-se

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Destaco um perfil da filósofa Martha Nussbaum, escrito por Rachel Aviv para a New Yorker (piauí traduziu). A perfilada põe em questão o quanto a jornalista se pautou para o trabalho — como é de costume, experiências adversas com coberturas jornalísticas marcavam sua atitude:

No momento, Martha Nussbaum está às voltas com um livro sobre o envelhecimento. Ao consultá-la sobre a possibilidade de escrever um perfil sobre ela, comuniquei-lhe minha intenção de fazer do novo livro o fio condutor da matéria. Cética, ela respondeu por e-mail que sua carreira era longa e variada, e acrescentou: “Você considerou os vários aspectos da minha trajetória? Tem um plano a seguir?” Menos de uma hora depois de eu lhe ter enviado a resposta, ela insistiu: “Você tem um plano? Gostaria de ouvir sua opinião sobre os prós e os contras de diferentes abordagens.”

A filósofa desconfiava da minha capacidade de abarcar a totalidade de sua obra, que trata de disciplinas diversas: direitos dos animais, emoções no direito penal, política da Índia, pessoas com necessidades especiais, intolerância religiosa, liberalismo político, o papel das humanidades na academia, assédio sexual, transferência transnacional de riqueza. “Seu desafio seria oferecer aos leitores um panorama da obra que fosse esclarecedor”, escreveu. “Sem um plano, vai ficar uma coisa fragmentada.” A seguir, mencionou três entrevistas em que sua dedicação ao ensino e aos alunos não havia sido contemplada. Numa delas, fora retratada como “uma pessoa que despreza as contribuições dos outros”, “um dos maiores insultos” que alguém poderia lhe dirigir.

Para além do que possam nos dizer a respeito de como fazer uma reportagem, esses parágrafos  funcionam em vários níveis no perfil: em primeiro lugar, reforçam algo que havia aparecido em um trecho anterior:

Sua autodisciplina inspirou o conto “My ex, the moral philosopher”  [Minha ex, a filósofa da moral], de Richard Stern, catedrático da Universidade de Chicago, morto em 2013. O conto descreve a contradição entre o “hino em louvor à espontaneidade e a natureza da filósofa, a pessoa menos espontânea que conheço – antes, a mais obstinada, nervosa e mesmo fanaticamente não espontânea”.

Ou seja, dá mostras de uma tentativa de controle que pode ser contraditória com as ideias da autora (não acho que sejam). Em segundo lugar, os parágrafos cumprem o que lhes é pedido apenas por descreverem o pedido: adiante, Aviv não tratará dos livros ou tentará dar uma visão panorâmica da obra de Nussbaum.

Submete-se à entrevistada sem se submeter. Dá o que ela quer, mas demonstra, pelo todo, que buscava algo diferente. Será que discutiu os prós e contras dessa abordagem?