seleta: pedofilia e conscientização; arte e privilégio

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Os melhores posts que li a respeito da discussão em torno da performance La Bête, do artista Wagner Schwartz, encenada no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. São cinco textos.

A polêmica girou em torno da falsa proposição de que a obra seria apologética à pedofilia e incluía a opinião de que crianças não devem ter qualquer contato com assuntos relacionados à sexualidade ou ao corpo. Propõe-se, assim, o tabu como meio de proteção. Por outro lado, os depoimentos de Sílvia Amélica de Araújo, Ariane Carmo, Paula Pripas e Dalvinha Brandão defendem a conscientização das crianças e pais e a construção de uma cultura não predatória.

Indo por uma outra via, Ricardo Terto analisa a distância entre o público em geral e a arte, que gera a possibilidade de distorções tamanhas como a que se procurou criar em relação a La Bête. O texto fala também de como a obra de arte pode abrir o indivíduo a outras formas de vivência, de como isso depende de uma certa generosidade e das idiossincrasias do receptor, e das várias dificuldades, no nosso contexto, de comunicar o valor do artístico.

Mais: compilei para a Maquiavel informações sobre o contexto da pedofilia no Brasil e sugestões de aperfeiçoamento no combate a este crime (“Vamos falar de pedofilia de verdade?“). Para a Cult, escrevi uma crítica de La Bête, analisando as suas potencialidades artísticas e aproximando-o de outras obras no campo da performance (“O bicho está nu: a polêmica La Bête no MAM“).

É impossível evitar que uma criança sofra algum tipo de abuso sexual ao longo da sua infância. Afinal, essa violência…

Publicado por Sílvia Amélia de Araújo em Sábado, 30 de setembro de 2017

Meus pais me ensinaram o que era sexo e abuso sexual eu era tão pequena que não lembro quantos anos tinha. Me ensinaram…

Publicado por Ariane Carmo em Quarta-feira, 4 de outubro de 2017

a gente chega em casa, tira roupa e almoça. Ou sobre nudez e outras themonias. Uma das minhas primeiras redações, num…

Publicado por Paula Pripas em Quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O moralismo cria o contexto perfeito para o abuso sexual de crianças. Não é a nudez. Não precisa de gente pelada para…

Publicado por Dalvinha Brandão em Quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Depois de um dia normal numa sexta-feira pré-sextou, estamos falando de poucos anos atrás, eu e três amigos esticamos na…

Publicado por Terto em Sábado, 30 de setembro de 2017

tropos jornalísticos: o repórter sacrificial em “Bayonetta”

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No game de ação Bayonetta, há uma figura da autoimagem ou da mitologia jornalística que é bem comum: o repórter heroicamente dedicado à busca da verdade. Ao longo da narrativa, encontramos as notas de um certo Antonio Redgrave, que descrevem o universo do jogo (sobre a guerra entre seitas que controlam magia e soldados tanto do Paraíso quanto do Inferno). Lemos na primeira delas:

A Voyage Towards The Truth

I’ve been a journalist now for over twenty years, always aiming for the guiding light of truth, always pushing forward. I’ve believed that communicating the truth is the core tenet of all journalism, chasing it until my legs turn to rubber and the truth is burned into my retinas.

But my journalistic career has hit an incredible wall, and I must confess that I’ve been crushed under the weight of the path I have traveled. It all began upon seeing the stone-chiseled history of the old European city of Vigrid, and past the deep scars time had left behind. The passing of history has always been overseen by a select few, and they have left memories of a time stained with blood.

This fact is integral in understanding the big picture but it also causes one to hesitate before becoming involved in such a dark history. Treading down this path I believe so firmly in means I cannot afford to lose faith in my convictions. It may also mean that my life is put in jeopardy; however, I hold deep within my heart the hope that even after my soul has left this body, as long as these notes, my proof of being, are passed to the right man, future ages will also come to know the truth.

They say that some things come at ‘the cost of your life,’ but to me, truth IS my life. In this age filled with lies and deception, I forever pray that truth will shine its light on the path of righteousness. [grifos nossos]

A verdade como núcleo do jornalismo, cujo valor é maior do que o da a vida do jornalista, de tal modo justifica o seu sacrifício contanto que esclareça o público. Nesse sentido, escrever é alcançar transcendência — a reportagem ou a obra é a prova de que o sujeito existiu.

Esbarrei nesse caso e fiz o post; se encontrarem essa mesma figura em outras produções, me lembrem nos comentários.

seleta: agosto/2017

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Alguns materiais que me chamaram a atenção mês passado:

Leis contra discurso de ódio são usadas para punir opiniões de esquerda na Europa, por Gleen Greenwald, em The Intercept Brasil — uma análise de como a luta contra a disseminação de discursos discriminatórios foi institucionalizada e, na Europa, acaba servindo à perseguição de ideias contestatórias ao estado. A ideia é: sim, talvez seja preciso inscrever na lei o combate ao ódio — mas, o sucesso nessa seara dá a quem estiver no poder a chance de decidir o que suprimir.

A black man went undercover online as a white supremacist. This is what he learned, por Peter Holley, no Washington Post —  o poeta Theo Wilson relata sua experiência de “infiltração” em grupos racistas online. A partir dela, denuncia uma certa incompreensão por pessoas que não são extremistas, mas tem a necessidade de manter suas tradições; e defende conversas cara a cara, de modo a dissolver a sensação de segurança e inconsequência provida pela internet.

A mad world: capitalism and the rise of mental illness, por Rod Tweedy, na Red Pepper — as conexões intrínsecas entre o neoliberalismo e o capitalismo, de um lado, e o crescimento internacional dos casos de transtorno mental. A interpretação recorre a Marx, identificando no fetichismo da mercadoria (sequestro da agência humana pelos objetos) a fonte de um esvaziamento da experiência, que levaria à neurose e outros distúrbios. Cita uma nova corrente, um “neuromarxismo”, sobre o que devo pesquisar mais.

‘Fui presa por contar uma piada’: os milhões levados aos gulags pela repressão soviética’: os milhões levados aos gulags pela repressão soviética, por Sarah Rainsford, no UOL Notícias/BBC News — depoimentos de sobreviventes dos gulags em uma reportagem sobre a construção de um monumento à memória daqueles que morreram sob o terror de Stálin. O relato que dá título à matéria é particularmente interessante, porque é muito próximo à premissa de A Brincadeira, de Milan Kundera: também um regime totalitário, também um gracejo que decide uma vida.

Bala Perdida, por José Cícero da Silva, na Públicaminidoc sobre os mortos por “bala perdida” no Rio de JaneiroBala perdida entre aspas porque, como diz, no vídeo, Raull Santiago, do Coletivo Papo Reto, como pode ser perdida, se as balas têm destino certo, isto é, as favelas? Isso sem falar nos incidentes dissimulados de execuções feitas pela polícia. O vídeo é triste e contundente. Pertinente: este perfil, por Tiago Coelho, na piauí, sobre um professor carioca que teve de criar sua cartilha para guiar os alunos durante tiroteios.

US has regressed to developing nation status, MIT economist warns, por Chloe Farand, em The Independent — com o crescimento da desigualdade e com uma parcela cada vez menor da população capaz de ascensão social, os Estados Unidos teriam regredido ao estado de um país de terceiro mundo. Pode ser lido junto com este artigo de David Leonhardt no New York Times, que demonstra como o “sonho americano”, a doutrina segundo a qual que cada geração teria condições de vida aperfeiçoadas e em relação à anterior, não é mais uma perspectiva para metade da população americana.

Mudanças de Estrutura na Crítica Literária dos EUA

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New York Magazine perfilou a crítica literária Michiko Kakutani, por ocasião da sua saída da equipe do New York Times, jornal em que atuou por 38 anos (acesse seus textos). Não conhecia a autora — aprendi que ela se enquadra na figura do crítico temido no meio, cujas avaliações podem consagrar novatos ou levar abaixo estrelas da área (no Brasil, isso se aplica a nomes como Barbara Heliodora, para o teatro, e Aracy Amaral, para as artes visuais). A matéria é interessante não só por dar alguma noção de como Michiko trabalha como por delinear as modificações nas maneiras de fazer jornalismo cultural nos Estados Unidos.

A crítica é elogiada pela sua operosidade (se adequa a outro elemento da mitologia jornalística: escreve artigos com perspectivas únicas e com consistência em pouco tempo) e pela sua capacidade de “sintetizar muitas correntes tanto da cultura como da política”. Um dos motivos de sua saída, aliás, foi por não terem lhe permitido se tornar uma colunista de política (pelo que parece, a separação entre opinião e informação é estrita assim no NY Times). Michiko deixa o jornal também para se dedicar mais ao livro The Death of Facts, uma “história cultural dos ‘fatos alternativos'”. Podemos imaginar que tratará com profundidade de fake news e pós-verdade. A ver.

***

Quanto às mudanças na crítica literária, destacam-se três mudanças:

Meanwhile, the Times became a tougher place for critical gods. Lone wolves hurling thunderbolts from their garrets gave way to affable co-critics doing online chats, Times Talks, and video clips, writing personal essays and exploring their own biases. (…)

O crítico deixa de ser um “lobo solitário”. É pedido a ele que seja mais pessoal, não só nos textos quanto interagindo diretamente com o público. Talvez por isso a Atlantic tenha artigos que são como mesas redondas entre seus críticos e a Los Angeles Review of Books traga textos entre depoimento e ensaio no seu Dear Television (ambos os exemplos linkados são da cobertura de Game of Thrones). A postura dialógica, porém, não é única dos nossos tempos: diz-se que as críticas teatrais de Décio de Almeida Prado são marcadas por isso.

Também a hierarquia da produção se transformou:

Lead critics are going out of style across the paper; there are now “co-chief critics” in art, theater, and film, and after Kakutani’s departure, no book critic will have the right of first refusal. (…)

Michiko podia escolher, antes dos demais, quais livros gostaria de resenhar. De acordo com quem trabalhava, isso gerou mais ou menos dificuldades de conciliação. De todo modo, esse privilégio deixa de ser uma possibilidade na redação. A distribuição dos livros passa a ter, além disso, um direcionamento maior dos editores, para evitar retrabalho e direcionar esforços. Nesse sentido:

Critics now meet with editors to brainstorm new elements and submit their pitches to the will of the collective. It’s a sea change for the daily, where critics had barely interacted with either editors or each other, and where, per two sources, Kakutani had sometimes been allowed to choose her editors and even copy editors.

Isto é, há um componente colaborativo mais intenso na criação das críticas. A autonomia do crítico se torna menor — torna-se? O isolamento (palavra propositadamente negativa) era mesmo benéfico? Ganha-se mais trazendo as ideias estéticas ao debate?

No XVII, Monthly Weeklies

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Chad Wellmon, no livro Organizing Enlightenment: Information Overload and the Invention of the Modern Research University, retrata a “explosão de periódicos” na segunda metade do século XVII. O tipo de veículo que mais se prolifera nesse período lembra a variedade de escopo do jornalismo conteporâneo:

The periodicals that expanded most rapidly in the first third of the century were the so-called moral weeklies and their related print forms often referred to by contemporary scholar as “trivial literature.” Addressed to a broad range of readers to civic engagement and Christian virtue. In contrast to the more internal focus of the scholarly periodicals, which were intent on maintaining the unity of the empire of erudition, these periodicals focused on a wide range of topics, including politics, the family, moral education, and civic life, and a broad set of genres, such as satires, moraling tales and fables, allegories, and published letters. (p. 65)

Essa “literatura trivial” cobre, em termos atuais, debates populares, comportamento e cultura. Seu apelo à moral, à cultura e ao intercâmbio de ideias é um apelo à vida em sociedade — parte de pressupostos sobre a esfera pública. Aprofundar essa comparação seria uma boa pesquisa em história do jornalismo.

Publicidade da Ausência

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Propagandas baseadas não na exibição do produto ou da marca, mas que trabalham eludindo (não totalmente, mas em grande intensidade) esses elementos centrais e se sustentando no ambiente de disseminação da mensagem, que deve garantir que ela seja completada. Ontem o New York Times publicou um exemplo disso: o McDonald’s lançou uma campanha que não cita nem seu nome nem hamburgueres.

Uma mulher vestida de amarelo sobre um fundo vermelho (as cores acabam sendo a única referência mais explicíta à marca) induz o espectador a procurar no Google sobre o restaurante em que a Coca-Cola tem um gosto melhor. Como essa é uma percepção comum sobre o McDonald’s, a pesquisa leva o usuário para páginas de busca com essa informação e, mais importante, para opiniões de outras pessoas sobre essa características que seria única.

NY Times registra:

The ads, which started running last week, are meant to play on how teens and twentysomethings use their phones while watching TV, while also acknowledging “how they’re discovering information” they trust, said Deborah Wahl, chief marketing officer of McDonald’s for the United States. “They are very influenced by word of mouth and what their peers say,” she said.

O anúncio mimetiza a forma como os jovens (e como os mais velhos também, por que não?) encontram informação — podemos dizer: via buscas rápidas, constatações superficiais, mas difundidas, e conclusões balizados pelas redes sociais? Há consenso de que é assim que, hoje, lidamos com a internet.

Essa notícia me recordou que em março a Heinz produziu uma campanha proposta (e recusada) na série Mad Men, em que o ketchup e a mostarda não apareciam, só o sanduíche, a batata e a frase “pass the Heinz”. A ideia do protagonista de Mad Men, Don Draper, era ressaltar que a experiência desses elementos exigia o produto da empresa, e o público saberia disso e seria levado a preenchê-la.

Tanto nesse caso quanto no anterior, a publicidade se justifica por uma espécie de rede proteção simbólica — é assim que os códigos são decodificados, podemos ter certeza de que, sem enviar o signo, ele será implicado pelos demais, como certa palavra pode ser sugerida no contexto de um artigo.

O Dia a Dia do Jornalismo de Dados

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O jornalista da The Economist Idrees Kahloon descreveu no Quora como é a rotina de um jornalista de dados:

(…) me deixe explicar o ciclo de vida de uma reportagem de dados:

  • Criação da ideia (é a parte mais difícil)
  • Identificar as fontes de dados
  • Limpar e organizar os dados (em geral excruciantemente tedioso)
  • Explorar os dados, com frequência um pouco sem objetivo
  • Testar as hipóteses tendo em vista conclusões interessantes ou montar um modelo estatístico (em geral apenas explanatório; modelos preditivos são muito mais difíceis)
  • Registrar as suas descobertas, o que sempre é suplementado com reportagem convencial
  • Por fim, submeter aos editores e checadores antes de publicar

Em um dia típico, o jornalista de dados não fará todas essas coisas — mas ele ou ela fará algumas delas. Eu gosto de tentar ler as notícias antes do trabalho: uma promissora matéria pode vir à mente. Quanto eu começo a trabalhar, eu posso tentar prosseguir algumas ideias anteriores ou a sugestão de um editor, procurando na internet ou questionando acadêmicos que conheço. Com sorte os dados podem ser baixados facilmente — senão eu terei de programar um scraper [aplicativo de mineração de dados] para puxar da internet as informações necessárias.

A limpeza dos dados toma uma boa parte do meu tempo. Irritantemente, você não saberá se a sua ideia é jornalisticamente frutífera até que você tenha terminado de limpar e iniciado a sua análise. Por vezes você gasta algumas horas em uma ideia, apenas para perceber que inviável. Mas é a vida.

Assim que eu acho alguma coisa verdadeiramente interessante, eu tento incorporar a ela outros conjuntos de dados se necessário e tento montar um modelo útil dos dados — geralmente uma regressão [técnica estatística que analisa a relação entre variáveis]. Isso só ajuda a explicar os dados — não serve usualmente para trabalhos preditivos, que requerem bem mais pensamento para modelar com precisão. Depois de chegar se os meus achados são estatisticamente robustos, eu escrevo sobre eles como qualquer outro jornalista faria.

Vê-se que são necessárias habilidades geralmente fora da formação do jornalista: programação e estatística.

Entrevista: Sitiar o Entrevistado

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Simon Raven e Martin Shuttleworth, da Paris Review, no abre da sua entrevista com o escritor Graham Greene, descrevem assim o seu entrevistado: “the man whom we had come to besiege” — o homem a que viemos fazer cerco. Essa metáfora bélica me soa uma definição forte e sutil para o ato de entrevistar.  Os jornalistas rodeiam as suas fontes, cercam-lhe as saídas, invadem-nos; os entrevistados, do outro lado, são os que resistem, os que confiam em víveres armazenados, muralhas, armadilhas.

A imagem se adapta bem a alguns casos reais. Gay Talese, para escrever o perfil de Frank Sinatra, conversou com todos nos arredores dos muros, mas não conseguiu por os pés na cidadela. Hilda Hilst foi cercada inúmeras vezes por jornalistas e, a cada vez, parecia que lhes entregava uma personagem, seu império real nunca devassado. Variando de intensidade e adequação, podemos representar vários outros casos…

Isso ecoa uma metáfora um pouco diferente, expressa pelo seriado The Newsroom: “A maneira pela qual uma campanha política deve ser coberta: como um exame cruzado [inquirição da testemunha trazida pela parte adversária] em um tribunal”. A situação é também de acuamento. A entrevista nesses casos seria uma circunstância da qual não se poderia extrair certa hostilidade básica.

***

É sintomático que a entrevista de Raven e Shuttleworth com Green não seja hostil nem consiga acuar o adversário. Em pelo menos dois momentos, os entrevistadores se dão conta de que não podem insistir:

(the telephone rang and when, after a brief conversation, Greene came back to his long low seat between the electric fires and topped up the glasses, the conversation was not resumed, for the point, we thought, if not implied, was difficult for him to discuss.)

Os repórteres notam que algo era “difícil de discutir” ao escritor, e param. Outra:

(The telephone rang. Mr. Greene smiled in a faint deprecatory way as if to signify he’d said all he wished to say, picked up the instrument and spoke into it.)

O sorriso do escritor lhes diz que o que disse até então seria tudo o que diria. O entrevistado ergue de repente muralhas mais altas, que desesperam qualquer cerco, e os exércitos jornalísticos debandam.

Só resta a eles observá-lo falar ao telefone:

Hello? Hello Peter! How is Andrea? Oh, it’s the other Peter. How is Maria? No, I can’t do it this evening. I’ve got Mario Soldati on my hands—we’re doing a film in Italy this summer. I’m co-producing. How about Sunday? Battersea? Oh, they’re not open? Well, then, we’ll go to my pleasant little Negro night club round the corner …

Mas talvez possamos manter a metáfora, somente que em cada caso variarão as intensidades e adequações.

***

Curiosidade: quando entrevistei o cineasta Arthur Omar para o programa Rumos Cinema e Vídeo 2009-2011, ele também atendeu uma chamada em meio à entrevista — e insistiu que fosse deixada na edição. Deixamos.

Roberto Kaz, Anáfora e Ópera

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Roberto Kaz fez uma série de escolhas criativas na reportagem “Quase Todos Presos“, para a revista piauí deste março de 2017, que narra os imbróglios da corrupção em Foz do Iguaçú. O lead descreve sem descrever, atiça:

Essa é uma história brasileira. E, por ser uma história brasileira, é uma história que mistura dinheiro público e privado. Essa é a história de uma cidade — Foz do Iguaçu — em que um prefeito, acusado de corrupção, acaba afastado do cargo. Mas é também a história de outro prefeito, ficha suja, que concorre ao terceiro mandato, é eleito e tem a candidatura indeferida antes de ser empossado. Essa é uma história brasileira e, por ser uma história brasileira, é uma história que mistura Polícia Federal, produtos Mary Kay e o cartunista Ziraldo.

O uso da anáfora (repetição das frases, que vai guiando o parágrafo) e o inaudito das ocorrências citadas, se somam para gerar uma sensação de absurdo. O trecho apela para um clichê (um vira-latismo no sentido de “só no Brasil uma coisa dessas”), mas mesmo assim tem força e não cai no nariz de cera, pois informa.

Alguns parágrafos adiante, ele reelabora o motivo com uma comparação:

Se essa história fosse uma ópera, baixariam as cortinas e terminaria, aqui, o primeiro ato. Ou, por outra: talvez houvesse, antes do fim, um breve monólogo. Seria um solilóquio funesto, daqueles que antecipam um desastre, proferido por um mendigo, um cego, uma ama ou uma bruxa. A orquestra tocaria um acordo macabro, as luzes se acenderiam e o público desfrutaria do intervalo.

Mas, como foi dito, a história é brasileira. Troca-se o monólogo por uma conversa grampeada; troca-se o mendigo por um político; e troca-se o desastre por uma licitação.

O tema da ópera vai se repetir de tempo em tempo marcando as mudanças de seção da matéria. A troca dos elementos próprios desse gênero pelo prosaico da política é humorístico no mínimo e chega ao surreal:

Na ópera clássica, o segundo ato é geralmente encerrado com um trecho musical grandioso, chamado concertato. Os personagens principais voltam ao palco para anunciar, em melodias distintas — e por vezes simultâneas —, uma tensão a ser resolvida no próximo ato. Se o segundo movimento dessa história terminasse com a posse de Ivone Barofaldi, o concertato iguaçuense seria entoado por ela, pelo prefeito afastado, pelo quarteto de delatores e pelo servidor Roberto Basílio de Oliveira — que a essa altura já não estava mais ligado à trama, apesar de ter sido o personagem que deflagrara a história.

São recursos interessantes, que tem até um ar de crítica artística, já que expõem a estrutura operística (e deixa a ideia: como seria montar uma ópera com esse assunto ou similar, de fato?). Por outro lado, é um expediente frívolo: retirado do texto, não lhe faz falta; não acrescenta quase nada aos fatos que reúne. É de se pensar como usar algo nesse sentido em uma reportagem de forma mais orgânica e necessária.

PA | “Como uma Resenha de ‘Como um Romance'”

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Post de apoio para o texto “Como uma Resenha de Como um Romance“, sobre o livro de Daniel Pennac com este nome. Esta postagem esclarece duas referências:

  • No terceiro parágrafo, o poema de Fernando Pessoa citado é “Liberdade”:

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…

  • Na última frase deste parágrafo, a menção ao filósofo Michel Foucault refere-se a essa frase, de “Entretien sur la prison: le livre et sa méthode”:

“A única marca de reconhecimento que se pode testemunhar a um pensamento como o de Nietzsche é precisamente utilizá-lo, deformá-lo, fazê-lo ranger, gritar.”

Complementos e reelaborações desse texto também serão postadas nos blogs daqui.