seleta: pedofilia e conscientização; arte e privilégio

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Os melhores posts que li a respeito da discussão em torno da performance La Bête, do artista Wagner Schwartz, encenada no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. São cinco textos. A polêmica girou em torno da falsa proposição de que a obra seria apologética à pedofilia e incluía a opinião de que crianças não devem ter qualquer contato com assuntos relacionados à sexualidade ou ao corpo. Propõe-se, assim, o tabu como meio de proteção. Por outro lado, os depoimentos de Sílvia Amélica de Araújo, Ariane Carmo, Paula Pripas e Dalvinha Brandão defendem a conscientização das crianças e pais e a construção de uma cultura não predatória. Indo por uma outra via, Ricardo Terto analisa a distância entre o público em geral e a arte, que gera a possibilidade de distorções tamanhas como a que se procurou criar em relação a La Bête. O texto fala também de como a obra de arte pode abrir o indivíduo a outras formas de vivência, de como isso depende de uma certa generosidade e das idiossincrasias do receptor, e das várias dificuldades, no nosso contexto, de comunicar o valor do artístico. Mais: compilei para a Maquiavel informações sobre o contexto da pedofilia no Brasil e sugestões […]

No XVII, Monthly Weeklies

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Chad Wellmon, no livro Organizing Enlightenment: Information Overload and the Invention of the Modern Research University, retrata a “explosão de periódicos” na segunda metade do século XVII. O tipo de veículo que mais se prolifera nesse período lembra a variedade de escopo do jornalismo conteporâneo: The periodicals that expanded most rapidly in the first third of the century were the so-called moral weeklies and their related print forms often referred to by contemporary scholar as “trivial literature.” Addressed to a broad range of readers to civic engagement and Christian virtue. In contrast to the more internal focus of the scholarly periodicals, which were intent on maintaining the unity of the empire of erudition, these periodicals focused on a wide range of topics, including politics, the family, moral education, and civic life, and a broad set of genres, such as satires, moraling tales and fables, allegories, and published letters. (p. 65) Essa “literatura trivial” cobre, em termos atuais, debates populares, comportamento e cultura. Seu apelo à moral, à cultura e ao intercâmbio de ideias é um apelo à vida em sociedade — parte de pressupostos sobre a esfera pública. Aprofundar essa comparação seria uma boa pesquisa em história do jornalismo.

Publicidade da Ausência

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Propagandas baseadas não na exibição do produto ou da marca, mas que trabalham eludindo (não totalmente, mas em grande intensidade) esses elementos centrais e se sustentando no ambiente de disseminação da mensagem, que deve garantir que ela seja completada. Ontem o New York Times publicou um exemplo disso: o McDonald’s lançou uma campanha que não cita nem seu nome nem hamburgueres. Uma mulher vestida de amarelo sobre um fundo vermelho (as cores acabam sendo a única referência mais explicíta à marca) induz o espectador a procurar no Google sobre o restaurante em que a Coca-Cola tem um gosto melhor. Como essa é uma percepção comum sobre o McDonald’s, a pesquisa leva o usuário para páginas de busca com essa informação e, mais importante, para opiniões de outras pessoas sobre essa características que seria única. O NY Times registra: The ads, which started running last week, are meant to play on how teens and twentysomethings use their phones while watching TV, while also acknowledging “how they’re discovering information” they trust, said Deborah Wahl, chief marketing officer of McDonald’s for the United States. “They are very influenced by word of mouth and what their peers say,” she said. O anúncio mimetiza a forma como os jovens […]

O Dia a Dia do Jornalismo de Dados

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O jornalista da The Economist Idrees Kahloon descreveu no Quora como é a rotina de um jornalista de dados: (…) me deixe explicar o ciclo de vida de uma reportagem de dados: Criação da ideia (é a parte mais difícil) Identificar as fontes de dados Limpar e organizar os dados (em geral excruciantemente tedioso) Explorar os dados, com frequência um pouco sem objetivo Testar as hipóteses tendo em vista conclusões interessantes ou montar um modelo estatístico (em geral apenas explanatório; modelos preditivos são muito mais difíceis) Registrar as suas descobertas, o que sempre é suplementado com reportagem convencial Por fim, submeter aos editores e checadores antes de publicar Em um dia típico, o jornalista de dados não fará todas essas coisas — mas ele ou ela fará algumas delas. Eu gosto de tentar ler as notícias antes do trabalho: uma promissora matéria pode vir à mente. Quanto eu começo a trabalhar, eu posso tentar prosseguir algumas ideias anteriores ou a sugestão de um editor, procurando na internet ou questionando acadêmicos que conheço. Com sorte os dados podem ser baixados facilmente — senão eu terei de programar um scraper [aplicativo de mineração de dados] para puxar da internet as informações necessárias. A limpeza dos dados toma uma boa […]

Entrevista: Sitiar o Entrevistado

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Simon Raven e Martin Shuttleworth, da Paris Review, no abre da sua entrevista com o escritor Graham Greene, descrevem assim o seu entrevistado: “the man whom we had come to besiege” — o homem a que viemos fazer cerco. Essa metáfora bélica me soa uma definição forte e sutil para o ato de entrevistar.  Os jornalistas rodeiam as suas fontes, cercam-lhe as saídas, invadem-nos; os entrevistados, do outro lado, são os que resistem, os que confiam em víveres armazenados, muralhas, armadilhas. A imagem se adapta bem a alguns casos reais. Gay Talese, para escrever o perfil de Frank Sinatra, conversou com todos nos arredores dos muros, mas não conseguiu por os pés na cidadela. Hilda Hilst foi cercada inúmeras vezes por jornalistas e, a cada vez, parecia que lhes entregava uma personagem, seu império real nunca devassado. Variando de intensidade e adequação, podemos representar vários outros casos… Isso ecoa uma metáfora um pouco diferente, expressa pelo seriado The Newsroom: “A maneira pela qual uma campanha política deve ser coberta: como um exame cruzado [inquirição da testemunha trazida pela parte adversária] em um tribunal”. A situação é também de acuamento. A entrevista nesses casos seria uma circunstância da qual não se poderia extrair certa hostilidade básica. *** É sintomático que a entrevista […]

Roberto Kaz, Anáfora e Ópera

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Roberto Kaz fez uma série de escolhas criativas na reportagem “Quase Todos Presos“, para a revista piauí deste março de 2017, que narra os imbróglios da corrupção em Foz do Iguaçú. O lead descreve sem descrever, atiça: Essa é uma história brasileira. E, por ser uma história brasileira, é uma história que mistura dinheiro público e privado. Essa é a história de uma cidade — Foz do Iguaçu — em que um prefeito, acusado de corrupção, acaba afastado do cargo. Mas é também a história de outro prefeito, ficha suja, que concorre ao terceiro mandato, é eleito e tem a candidatura indeferida antes de ser empossado. Essa é uma história brasileira e, por ser uma história brasileira, é uma história que mistura Polícia Federal, produtos Mary Kay e o cartunista Ziraldo. O uso da anáfora (repetição das frases, que vai guiando o parágrafo) e o inaudito das ocorrências citadas, se somam para gerar uma sensação de absurdo. O trecho apela para um clichê (um vira-latismo no sentido de “só no Brasil uma coisa dessas”), mas mesmo assim tem força e não cai no nariz de cera, pois informa. Alguns parágrafos adiante, ele reelabora o motivo com uma comparação: Se essa história fosse uma ópera, baixariam […]

PA | “Como uma Resenha de ‘Como um Romance'”

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Post de apoio para o texto “Como uma Resenha de Como um Romance“, sobre o livro de Daniel Pennac com este nome. Esta postagem esclarece duas referências: No terceiro parágrafo, o poema de Fernando Pessoa citado é “Liberdade”: Ai que prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não o fazer! Ler é maçada, estudar é nada. O sol doira sem literatura. O rio corre bem ou mal, sem edição original. E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal como tem tempo, não tem pressa… Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma. Quanto melhor é quando há bruma. Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não! Grande é a poesia, a bondade e as danças… Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol que peca Só quando, em vez de criar, seca. E mais do que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças, Nem consta que tivesse biblioteca… Na última frase deste parágrafo, a menção ao filósofo Michel Foucault refere-se a essa frase, de “Entretien sur la prison: le livre et sa méthode”: “A única marca de […]