seleta: pedofilia e conscientização; arte e privilégio

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Os melhores posts que li a respeito da discussão em torno da performance La Bête, do artista Wagner Schwartz, encenada no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. São cinco textos. A polêmica girou em torno da falsa proposição de que a obra seria apologética à pedofilia e incluía a opinião de que crianças não devem ter qualquer contato com assuntos relacionados à sexualidade ou ao corpo. Propõe-se, assim, o tabu como meio de proteção. Por outro lado, os depoimentos de Sílvia Amélica de Araújo, Ariane Carmo, Paula Pripas e Dalvinha Brandão defendem a conscientização das crianças e pais e a construção de uma cultura não predatória. Indo por uma outra via, Ricardo Terto analisa a distância entre o público em geral e a arte, que gera a possibilidade de distorções tamanhas como a que se procurou criar em relação a La Bête. O texto fala também de como a obra de arte pode abrir o indivíduo a outras formas de vivência, de como isso depende de uma certa generosidade e das idiossincrasias do receptor, e das várias dificuldades, no nosso contexto, de comunicar o valor do artístico. Mais: compilei para a Maquiavel informações sobre o contexto da pedofilia no Brasil e sugestões […]

Entrevista: Sitiar o Entrevistado

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Simon Raven e Martin Shuttleworth, da Paris Review, no abre da sua entrevista com o escritor Graham Greene, descrevem assim o seu entrevistado: “the man whom we had come to besiege” — o homem a que viemos fazer cerco. Essa metáfora bélica me soa uma definição forte e sutil para o ato de entrevistar.  Os jornalistas rodeiam as suas fontes, cercam-lhe as saídas, invadem-nos; os entrevistados, do outro lado, são os que resistem, os que confiam em víveres armazenados, muralhas, armadilhas. A imagem se adapta bem a alguns casos reais. Gay Talese, para escrever o perfil de Frank Sinatra, conversou com todos nos arredores dos muros, mas não conseguiu por os pés na cidadela. Hilda Hilst foi cercada inúmeras vezes por jornalistas e, a cada vez, parecia que lhes entregava uma personagem, seu império real nunca devassado. Variando de intensidade e adequação, podemos representar vários outros casos… Isso ecoa uma metáfora um pouco diferente, expressa pelo seriado The Newsroom: “A maneira pela qual uma campanha política deve ser coberta: como um exame cruzado [inquirição da testemunha trazida pela parte adversária] em um tribunal”. A situação é também de acuamento. A entrevista nesses casos seria uma circunstância da qual não se poderia extrair certa hostilidade básica. *** É sintomático que a entrevista […]

Roberto Kaz, Anáfora e Ópera

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Roberto Kaz fez uma série de escolhas criativas na reportagem “Quase Todos Presos“, para a revista piauí deste março de 2017, que narra os imbróglios da corrupção em Foz do Iguaçú. O lead descreve sem descrever, atiça: Essa é uma história brasileira. E, por ser uma história brasileira, é uma história que mistura dinheiro público e privado. Essa é a história de uma cidade — Foz do Iguaçu — em que um prefeito, acusado de corrupção, acaba afastado do cargo. Mas é também a história de outro prefeito, ficha suja, que concorre ao terceiro mandato, é eleito e tem a candidatura indeferida antes de ser empossado. Essa é uma história brasileira e, por ser uma história brasileira, é uma história que mistura Polícia Federal, produtos Mary Kay e o cartunista Ziraldo. O uso da anáfora (repetição das frases, que vai guiando o parágrafo) e o inaudito das ocorrências citadas, se somam para gerar uma sensação de absurdo. O trecho apela para um clichê (um vira-latismo no sentido de “só no Brasil uma coisa dessas”), mas mesmo assim tem força e não cai no nariz de cera, pois informa. Alguns parágrafos adiante, ele reelabora o motivo com uma comparação: Se essa história fosse uma ópera, baixariam […]

PA | “Como uma Resenha de ‘Como um Romance'”

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Post de apoio para o texto “Como uma Resenha de Como um Romance“, sobre o livro de Daniel Pennac com este nome. Esta postagem esclarece duas referências: No terceiro parágrafo, o poema de Fernando Pessoa citado é “Liberdade”: Ai que prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não o fazer! Ler é maçada, estudar é nada. O sol doira sem literatura. O rio corre bem ou mal, sem edição original. E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal como tem tempo, não tem pressa… Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma. Quanto melhor é quando há bruma. Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não! Grande é a poesia, a bondade e as danças… Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol que peca Só quando, em vez de criar, seca. E mais do que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças, Nem consta que tivesse biblioteca… Na última frase deste parágrafo, a menção ao filósofo Michel Foucault refere-se a essa frase, de “Entretien sur la prison: le livre et sa méthode”: “A única marca de […]

Tarefa da ‘Enciclopédia’, Tarefa do Jornalismo

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Um trecho do “Discurso Preliminar” à Enciclopédia ou Dicionário Razoado das Ciências, das Artes e dos Ofícios, editada pelos filósofos iluministas Denis Diderot e Jean le Rond d’Alembert, que é útil à prática da reportagem: (…) foi necessário dar, a cada matéria, uma extensão conveniente, insistir no essencial, negligenciar as minúcias e evitar um defeito bastante comum, o de insistir no que só exige uma palavra, provar o que ninguém contesta e comentar o que é claro. Não poupamos nem prodigamos os esclarecimentos. Julgar-se-á se eram necessário em todos os lugares em que os colocamos e que teriam sido supérfluos onde não serão encontrados. Tivemos ainda o cuidado de não acumular provas, quando julgamos que uma única argumentação sólida seria suficiente, e as multiplicamos tão somente nas ocasiões em que sua força dependia de seu número e da concordância entre elas. [p. 229] A extensão conveniente, o insistir no essencial, o negligenciar as minúcias — todos são atributos que podem se dar à busca da objetividade (podemos questionar como avaliar o que é ou não é “minúcia”). O esclarecimento na medida do que é preciso também se adequa à prática jornalística, que parte também da ideia de ser rápida, informando nos espaços de um cotidiano de trabalho. A […]

Atenção às Demandas do Debate

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O professor e pesquisador Pablo Ortellado apontou a prevaricação jornalística na cobertura da morte do juiz Teori Zavascki, feita contraditoriamente por se querer responsável: Um ministro do Supremo, relator da Lava Jato, morre num acidente de avião, dias antes de homologar uma delação que incriminaria dezenas de políticos. As pessoas começam a suspeitar que o ministro pode ter sido assassinado. O consumo de notícias sobre o caso dispara, justamente por causa da suspeita, mas a grande imprensa, por “responsabilidade”, não menciona a hipótese de que o avião possa ter sido sabotado enquanto não surgem evidências concretas. Ela trata do assunto como se a possibilidade não pudesse ser discutida a sério, desprezando a preocupação do país inteiro. Enquanto isso, o acesso à má imprensa dispara, já que só ela está discutindo diretamente aquilo com que todo mundo está preocupado. O efeito de não dar espaço à hipótese de sabotagem, por intenção de não valorizá-la indevidamente, acaba, de forma oposta, a potencializando: É sempre assim. Surge um boato, a imprensa séria apura, não surge nada sólido e ao invés de fazer uma matéria dizendo “boato nas redes sociais não procede”, ela simplesmente não diz nada, entregando audiência para a má imprensa. Essa postura é pura arrogância. A […]

Pautar-se e Submeter-se

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Destaco um perfil da filósofa Martha Nussbaum, escrito por Rachel Aviv para a New Yorker (a piauí traduziu). A perfilada põe em questão o quanto a jornalista se pautou para o trabalho — como é de costume, experiências adversas com coberturas jornalísticas marcavam sua atitude: No momento, Martha Nussbaum está às voltas com um livro sobre o envelhecimento. Ao consultá-la sobre a possibilidade de escrever um perfil sobre ela, comuniquei-lhe minha intenção de fazer do novo livro o fio condutor da matéria. Cética, ela respondeu por e-mail que sua carreira era longa e variada, e acrescentou: “Você considerou os vários aspectos da minha trajetória? Tem um plano a seguir?” Menos de uma hora depois de eu lhe ter enviado a resposta, ela insistiu: “Você tem um plano? Gostaria de ouvir sua opinião sobre os prós e os contras de diferentes abordagens.” A filósofa desconfiava da minha capacidade de abarcar a totalidade de sua obra, que trata de disciplinas diversas: direitos dos animais, emoções no direito penal, política da Índia, pessoas com necessidades especiais, intolerância religiosa, liberalismo político, o papel das humanidades na academia, assédio sexual, transferência transnacional de riqueza. “Seu desafio seria oferecer aos leitores um panorama da obra que fosse esclarecedor”, […]

Cena Madura, Efeito da Crítica

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Um trecho da entrevista do quadrinista Ricardo Coimbra ao Scream & Yell: (…) para ter cena, é preciso ter público, ter mercado e ter crítica. Quando as pessoas vão fazer críticas sobre quadrinhos, são sempre apaixonados, pessoas que querem incentivar a criação de uma cena, e com isso passam muito a mão na cabeça dos autores. (…) uma crítica real, [que] desce a ripa (…) ajuda a cena a ficar madura. Senão, ficamos só com críticas condescendentes. Já vi acontecer com amigos meus e até comigo: o cara escreve algo como “ah, o cara é ruim pra caralho, mas temos que dar força pra cena”… Essa crítica condescendente é a pior coisa! É melhor você destrinchar logo e dar à cena a chance de melhorar. “Ah, porque entendo que o cara teve dificuldades…” Além de isso ser uma conversa fiada do caralho, é algo que não colabora em nada. Você não pode ficar passando a mão na cabeça e aceitando coisas medíocres, aceitando erros que a pessoa poderia melhorar. Me parece que se trata menos do crítico como gate keeper — alguém que estaria ao término dos processos criativos, como que separando o joio do trigo — e mais de alguém capaz de […]

O Jornalista Enquanto Boi

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Dois efeitos de manada jornalísticos. O primeiro, encontro no livro A Garota da Banda, da musicista, artista visual e estilista americana Kim Gordon (mais conhecida como baixista do Sonic Youth): Quando conheci Jutta Koether, ela era editora e redatora na revista Spex. Ela estava me entrevistando e ao Thurston durante a nossa turnê europeia do Daydream Nation, e pareceu confusa pelo fato de que o Sonic Youth, conhecido como uma espécie de banda de punk rock, usaria a ilustração da vela de Gerhard Richter na capa do disco. Para a Alemanha, Gerhard era, e ainda é, seu principal artista contemporâneo, mas para Jutta parecia que estávamos fazendo uma decisão artística banal e orientada pelo status quo. Após semanas dando entrevistas, onde a maioria dos jornalistas fazia as mesmas três ou quatro perguntas, era ótimo ter alguém que nos desafiasse. [p. 277; grifo meu] Todos questionando as mesmas questões, registrando as mesmas respostas e, plausivelmente, redigindo as mesmas matérias. O trecho faz pensar não só sobre o esquematismo e a falta de criatividade das pautas, mas também sobre o que espera de nós o entrevistado: ser realmente interpelado pelas perguntas, não só enunciar reações decoradas, mas de fato expressar-se. O segundo efeito de manada está na reportagem “Padre Cícero […]

recomeço.

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Há uns cinco anos atrás, eu produzia um blog sobre jornalismo — o duanneribeiro.blogspot.com — iniciado pouco depois de que eu me formei, mantido ao longo dos primeiros trabalhos profissionais na área e depois abandonado. Este blog retoma não só alguns posts desse outro mais antigo, mas o seu espírito — se propõe a discussões sobre jornalismo. Além disso, será um espaço de curadoria de informação; trarei para cá pequenas listas das coisas que leio. Funcionará, pra mim, como um momento de ruminar a informação que consumo; espero que funcione para vocês como curiosidade e atualização.