Tarefa da ‘Enciclopédia’, Tarefa do Jornalismo

Posted on Leave a commentPosted in Sem categoria

Um trecho do “Discurso Preliminar” à Enciclopédia ou Dicionário Razoado das Ciências, das Artes e dos Ofícios, editada pelos filósofos iluministas Denis Diderot e Jean le Rond d’Alembert, que é útil à prática da reportagem:

(…) foi necessário dar, a cada matéria, uma extensão conveniente, insistir no essencial, negligenciar as minúcias e evitar um defeito bastante comum, o de insistir no que só exige uma palavra, provar o que ninguém contesta e comentar o que é claro. Não poupamos nem prodigamos os esclarecimentos. Julgar-se-á se eram necessário em todos os lugares em que os colocamos e que teriam sido supérfluos onde não serão encontrados. Tivemos ainda o cuidado de não acumular provas, quando julgamos que uma única argumentação sólida seria suficiente, e as multiplicamos tão somente nas ocasiões em que sua força dependia de seu número e da concordância entre elas. [p. 229]

extensão conveniente, o insistir no essencial, o negligenciar as minúcias — todos são atributos que podem se dar à busca da objetividade (podemos questionar como avaliar o que é ou não é “minúcia”). O esclarecimento na medida do que é preciso também se adequa à prática jornalística, que parte também da ideia de ser rápida, informando nos espaços de um cotidiano de trabalho. A última parte pode falar aos jornalistas investigativos, de artes ou de ideias: a sustentação de uma denúncia, de uma crítica ou de um ensaio exige equilibrada carga de comprovação. É necessário saber se se onera o leitor em demasia.

seleta #1: Melhores Textos de Janeiro e início de Fevereiro

Posted on Leave a commentPosted in Curadoria de Informação

Alguns artigos desse começo de ano que marcaram minha atenção. Se você por algum motivo tiver curiosidade sobre o que mais eu li, tudo o que eu leio (ou deixo pra depois) e favorito pode ser visto no meu perfil do Diigo.

Sigamos, então:

Sex doesn’t sell any more, activism does. And don’t the big brands know it“, de Alex Holder, no Guardian — em que lemos como a “responsabilidade social” ou a aplicação das empresas a causas que geram retorno publicitário positivo (questões de gênero, por exemplo) está se tornando ubíqua. A estratégia, é claro, não implica em um comprometimento de fato dessas organizações (marcas diferentes sob um só guarda-chuva podem agir em contradição, como é o caso da Unilever), mas o efeito autocondescente sobre o público é hipnotizante: “If a brand can allow me to carry on living exactly as I was and fuel my social conscience then they can have all my pocket money”. O diagnóstico demanda uma nova crítica dessas posturas comerciais.

Como mentiras sobre a morte de Marisa buscam evitar empatia com Lula“, de Leonardo Sakamoto, no seu blog — em que o jornalista fala do que seria uma campanha orquestrada para manter a rejeição de Lula no lugar. Interessante este trecho em que há uma análise do como se faz a política atual como um todo:

Ao longo dos últimos anos, entrevistei profissionais contratados por políticos para construir ou desconstruir candidaturas através de ação coordenada em redes sociais. E, ao contrário do que acredita o senso comum, não são robôs usados para xingar tresloucadamente que causam os maiores impactos, mas ”fazendas” de perfis falsos que parecem reais e são administradas por anos, agindo de acordo com pesquisas comportamentais.

How I Rewired My Brain to Become Fluent in Math“, de Barbara Oakley, no Nautilus — em que a ex-tradutora-intérprete do russo, amante das letras, que se tornou engenheira após a casa dos vinte conta como foi esse processo e fala sobre “aprender a aprender” (ela se foca no treinamento intensivo e na repetição, se opondo a pedagogias que se restrinjam à compreensão global). O texto meio que foi lançado para anunciar o curso de Oakley no Coursera — Learning How to Learn, que ocorre ainda por mais três semanas, o qual eu estou tentando fazer nos espaços da rotina e que já me ensinou uma coisa ou outra.

The Movie with a Thousand Plotlines“, de Raffi Khatchadourian, na New Yorker — em que se comenta sobre o futuro do cinema e do audiovisual, um futuro que será marcado pela interatividade: o espectador pode, em níveis cada vez mais inovadores, decidir o rumo das histórias, desde escolhendo cenários e desenvolvimentos da narrativa até, apenas sendo monitorado pelo sistema (movimentos de retina ou outros dados aferidos do corpo; ou ainda um perfil construído com as informações adquiridas pelas máquinas ao longo do tempo), movimentar a história. O texto deixa claro como questões de agência e personalidade entram em jogo aí.

Isaac Asimov: How to Never Run Out of Ideas Again“, trechos selecionados por Charles Chu, no Medium — em que se faz o que o título promete: são trechos do diário de Asimove em que ele discorre sobre como se manter criativo o tempo todo. São algumas regras, esquematizadas por Chu: nunca pare de aprender, não pare quando ficar travado, não desista frente ao medo da crítica alheia, baixe seus critérios, produza mais e se esforce sempre o máximo.

Atenção às Demandas do Debate

Posted on Leave a commentPosted in Sem categoria

O professor e pesquisador Pablo Ortellado apontou a prevaricação jornalística na cobertura da morte do juiz Teori Zavascki, feita contraditoriamente por se querer responsável:

Um ministro do Supremo, relator da Lava Jato, morre num acidente de avião, dias antes de homologar uma delação que incriminaria dezenas de políticos. As pessoas começam a suspeitar que o ministro pode ter sido assassinado. O consumo de notícias sobre o caso dispara, justamente por causa da suspeita, mas a grande imprensa, por “responsabilidade”, não menciona a hipótese de que o avião possa ter sido sabotado enquanto não surgem evidências concretas. Ela trata do assunto como se a possibilidade não pudesse ser discutida a sério, desprezando a preocupação do país inteiro. Enquanto isso, o acesso à má imprensa dispara, já que só ela está discutindo diretamente aquilo com que todo mundo está preocupado.

O efeito de não dar espaço à hipótese de sabotagem, por intenção de não valorizá-la indevidamente, acaba, de forma oposta, a potencializando:

É sempre assim. Surge um boato, a imprensa séria apura, não surge nada sólido e ao invés de fazer uma matéria dizendo “boato nas redes sociais não procede”, ela simplesmente não diz nada, entregando audiência para a má imprensa. Essa postura é pura arrogância. A imprensa supõe que (ainda) é a detentora da verdade social e que se ela não deu, a coisa não existe. Mas se isso algum dia já foi verdade, seguramente não é mais. É assim que ela alimenta o refrão, repetido à esquerda e à direita, de que “isso a imprensa (a Globo/ a Folha) não mostra!”. A descrença na grande imprensa é pelo menos em parte resultante desta postura arrogante. A culpa não é só do algoritmo do Facebook e da polarização. A imprensa precisa atender, sem petulância, a preocupação das pessoas comuns. Está na hora da boa imprensa discutir a possibilidade de sabotagem no avião, mesmo que seja para dizer que é uma hipótese improvável e sem grande apoio em evidências. É possível fazer isso a sério e com responsabilidade. Não só é possível, é necessário.

Existe, portanto, uma necessidade do desmentido.

Note-se que pelo menos Elio Gaspari sugeri uma investigação especial do caso: “Nada a ver com teoria da conspiração, trata-se de dúvida mesmo”.

A propósito, comentei sobre a tal polarização, pelo viés do embate direita x esquerda.

***

Relacionado: também analisando a influência da imprensa na difusão de desinformação, escreve Dairan Paul:

Em que bases se assentam os rumores? O jornalismo não estaria na hora de fazer o seu mea culpa? Para Moretzsohn (2014, p. 168), o erro está na ênfase de que informações provêm cada vez mais de pessoas próximas, e não de instituições jornalísticas: “não seria o caso de indagar de onde ‘família, amigos, colegas’ retiram as informações em que ‘as pessoas’ confiam?”. Os rumores não necessitariam de um mínimo de verossimilhança para que se acredite neles? Por exemplo, a afirmação de alguns manifestantes pró-impeachment de que imigrantes haitianos vieram ao Brasil para votar em Dilma é, certamente, absurda. Mas quantas vezes a cobertura jornalística tratou a imigração com um enquadramento positivo? Quantas vezes o estrangeiro não foi representado como um “outro” perigoso, que traria problemas ao país?

Pautar-se e Submeter-se

Posted on Leave a commentPosted in Sem categoria

Destaco um perfil da filósofa Martha Nussbaum, escrito por Rachel Aviv para a New Yorker (piauí traduziu). A perfilada põe em questão o quanto a jornalista se pautou para o trabalho — como é de costume, experiências adversas com coberturas jornalísticas marcavam sua atitude:

No momento, Martha Nussbaum está às voltas com um livro sobre o envelhecimento. Ao consultá-la sobre a possibilidade de escrever um perfil sobre ela, comuniquei-lhe minha intenção de fazer do novo livro o fio condutor da matéria. Cética, ela respondeu por e-mail que sua carreira era longa e variada, e acrescentou: “Você considerou os vários aspectos da minha trajetória? Tem um plano a seguir?” Menos de uma hora depois de eu lhe ter enviado a resposta, ela insistiu: “Você tem um plano? Gostaria de ouvir sua opinião sobre os prós e os contras de diferentes abordagens.”

A filósofa desconfiava da minha capacidade de abarcar a totalidade de sua obra, que trata de disciplinas diversas: direitos dos animais, emoções no direito penal, política da Índia, pessoas com necessidades especiais, intolerância religiosa, liberalismo político, o papel das humanidades na academia, assédio sexual, transferência transnacional de riqueza. “Seu desafio seria oferecer aos leitores um panorama da obra que fosse esclarecedor”, escreveu. “Sem um plano, vai ficar uma coisa fragmentada.” A seguir, mencionou três entrevistas em que sua dedicação ao ensino e aos alunos não havia sido contemplada. Numa delas, fora retratada como “uma pessoa que despreza as contribuições dos outros”, “um dos maiores insultos” que alguém poderia lhe dirigir.

Para além do que possam nos dizer a respeito de como fazer uma reportagem, esses parágrafos  funcionam em vários níveis no perfil: em primeiro lugar, reforçam algo que havia aparecido em um trecho anterior:

Sua autodisciplina inspirou o conto “My ex, the moral philosopher”  [Minha ex, a filósofa da moral], de Richard Stern, catedrático da Universidade de Chicago, morto em 2013. O conto descreve a contradição entre o “hino em louvor à espontaneidade e a natureza da filósofa, a pessoa menos espontânea que conheço – antes, a mais obstinada, nervosa e mesmo fanaticamente não espontânea”.

Ou seja, dá mostras de uma tentativa de controle que pode ser contraditória com as ideias da autora (não acho que sejam). Em segundo lugar, os parágrafos cumprem o que lhes é pedido apenas por descreverem o pedido: adiante, Aviv não tratará dos livros ou tentará dar uma visão panorâmica da obra de Nussbaum.

Submete-se à entrevistada sem se submeter. Dá o que ela quer, mas demonstra, pelo todo, que buscava algo diferente. Será que discutiu os prós e contras dessa abordagem?

Cena Madura, Efeito da Crítica

Posted on Leave a commentPosted in Sem categoria

Um trecho da entrevista do quadrinista Ricardo Coimbra ao Scream & Yell:

(…) para ter cena, é preciso ter público, ter mercado e ter crítica. Quando as pessoas vão fazer críticas sobre quadrinhos, são sempre apaixonados, pessoas que querem incentivar a criação de uma cena, e com isso passam muito a mão na cabeça dos autores. (…) uma crítica real, [que] desce a ripa (…) ajuda a cena a ficar madura. Senão, ficamos só com críticas condescendentes. Já vi acontecer com amigos meus e até comigo: o cara escreve algo como “ah, o cara é ruim pra caralho, mas temos que dar força pra cena”… Essa crítica condescendente é a pior coisa! É melhor você destrinchar logo e dar à cena a chance de melhorar. “Ah, porque entendo que o cara teve dificuldades…” Além de isso ser uma conversa fiada do caralho, é algo que não colabora em nada. Você não pode ficar passando a mão na cabeça e aceitando coisas medíocres, aceitando erros que a pessoa poderia melhorar.

Me parece que se trata menos do crítico como gate keeper — alguém que estaria ao término dos processos criativos, como que separando o joio do trigo — e mais de alguém capaz de fornecer um feedback especializado. Alguém que em um diálogo possivelmente ríspido com o artista o força a se desenvolver.

Contraponha-se Coimbra, por exemplo à visão de Barbara Heliodora:

A natureza não precisa de crítica […]. Mas a arte é um produto humano, então ela pode ser analisada. O crítico completa o processo analisando esse produto. Você vai lucrar com a apreciação do crítico e, se você tem um texto que é mais difícil, ele pode escrever a respeito do texto antes da estreia e com isso preparar o público para apreciar o espetáculo. O crítico tem uma função que tanto é ligada ao público quanto ao realizador.

A tradutora e crítica de teatro ressalta a relação do crítico com o público: prepara a apreciação, educa; analisa um produto, indica ou rechaça. Reconhece que a ligação do crítico com o realizador, mas isso se dá mais no sentido de: o primeiro pode ajudar o segundo a chegar no espectador — ou barrar o contato.

Coimbra, por outro lado, vê essa relação no sentido de construção de uma cena (de um contexto criativo, o que envolve o público, mas como um componente) e do aperfeiçoamento das possibilidades de criação.

(O quão distantes ambos estão de Jonathan Russell Clark e do crítico como artista?)

Os Seis Criados Honestos de Kipling

Posted on Leave a commentPosted in Ciência da Informação, Teoria do Jornalismo

O cientista da informação Kevin McGarry. no livro O Contexto Dinâmico da Informação, cita um poema do escritor Rudyard Kipling:

Tenho seis criados honestos
Ensinaram-me tudo que sabia
Seus nomes são que e por que e quando
E como e onde e quem

São as mesmas perguntas básicas do lead. Como é algo na base da nossa profissão, pode ser interesse a análise que McGarry faz, na sequência, de cada uma das seis:

Perguntas do tipo que geralmente se relacionam com os usos que se podem dar às coisas. Químicos, engenheiros, metalúrgicos e físicos, entre outros, especializam-se em tais questões. Perguntas do tipo que são freqüentemente sobre as definições das palavras e ajudam a manter os lexicógrafos ocupados com a compilação de dicionários. Questões sobre ‘o quê’ de algo freqüentemente se limitam com por quecomo. Às vezes, quando perguntamos ‘que é isso?’ estamos perguntando ‘como isso funciona dentro do sistema?’

Perguntas do tipo por que são as mais difíceis de responder porque a resposta normalmente provoca mais por ques, e assim a busca de informação continua. Perguntas do tipo quandoonde são métodos de organizar o tempo e o espaço. Podem surgir tanto em contextos passados quanto futuros. Se feitas a respeito do passado, trata-se de perguntas básicas que devem ser respondidas com uma precisão razoável para que se possa travar uma conversa produtiva. As questões que formulam constituem o dia-a-dia da geografia e da história e freqüentemente são uma forma disfarçada de por quê.

Perguntas do tipo como geralmente tratam da origem dos processos, das origens das experiências sobre processos, da utilidade de um processo, ou de uma política. As respostas para estas perguntas são muitas vezes descrições da série de eventos que determinaram a experiência em questão. Como começou a Primeira Guerra Mundial? A resposta acarretaria a descrição de uma série de eventos que levaram ao início dessa catástrofe. Da mesma forma, como teve início o sistema de bibliotecas públicas? A resposta incluiria as condições precedentes, as pessoas envolvidas, suas aspirações e estratégias, de fato, a resposta tocaria, em primeiro lugar, em por que temos bibliotecas públicas. Perguntas do tipo quem geralmente acabam sendo uma forma disfarçada de perguntas do tipo que como. ‘Quem é ela?’ pode exigir uma resposta que descreva o papel do indivíduo numa organização. ‘Ela é especialista em informática do serviço de bibliotecas do município.’ Quem irá fazer? suscita uma questão do tipo como; quem é responsável pela política governamental a respeito das bibliotecas públicas? irá por fim suscitar uma pergunta do tipo por quê. É quase certo que uma pergunta do tipo por que acabará por surgir se os outros criados honestos forem pressionados demais. [p. 8-9]

A Cegueira do Jornalista de Games Focado em Games

Posted on Leave a commentPosted in Jornalismo Cultural

Microsoft won’t turn your Xbox One into a PC, it wants to turn your PC into an Xbox One“, de Ben Kuchera, especula sobre a estratégia comercial da Microsoft ao interligar o seu sistema operacional Windows 10 com o seu console de videogame Xbox One. O artigo pinta um cenário sombrio em que a empresa consegue debelar os seus concorrentes e fechar o mercado a seu favor. É interessante; e nos comentários dele achei uns pontos de vista pejorativos sobre jornalistas de games que valem um debate. O comentarista thecommonperson disse:

Ben’s article is that of a gaming journalist, it’s myopic and focused on a very small sliver of Microsoft while ignoring the larger context (just like someone who says Sony is a great company in terrific shape ignores the larger context of their flagging fortunes in every other division beyond Playstation and as long as Playstation is not spun off from the rest of the company I fear for its future). [grifo meu]

(…) in the myopic game-centric view of a games journalist this may be the case but as a boots on the ground IT professional perspective while MS have done some crappy things in the past this is a bridge too far for their most valued customers (and their most valued customers are not gamers which as a gamer I can say that is at times a bitter pill to swallow). In fact, their only actions so far, have been to streamline the process to do exactly the opposite of what is being alleged they are planning. [grifo meu]

Outro comentarista trooper11 aparenta a mesma opinião:

Regarding the Xbox becoming more like a pc, it’s so strange that the author is basically oblivious to the clear steps MS has taken to do just that. I’ll forgive someone that only follows gaming news, but if you also were closely following Windows development and MS’ other events, you would clearly see that MS wants the Xbox to be an extension of pc gaming. [grifo meu]

O jornalista de games é acusado de ter uma visão míope, centrada em games. Em outras palavras, o jornalista de games está sendo acusado de ser  um jornalista de games. Ou de ser “alguém que só acompanha notícias sobre games”. O artigo de Kuchera, segundo os comentaristas, não resiste a uma análise que leve em conta o cenário da tecnologia da informação de uma forma ampla, o campo comercial em que o Xbox One se enquadra, a visão de futuro global da Microsoft.

Dei uma olhada e não parece que esse é um conselho corrente para quem pretende se tornar um repórter ou crítico nessa área. Li por exemplo “How to: get into gaming journalism. It’s not all fun and games“, do Journalism.co.uk, e não há nada. Se vocês tiverem referências nesse sentido, ponham nos comentários!

O Jornalista Enquanto Boi

Posted on Leave a commentPosted in Sem categoria

Dois efeitos de manada jornalísticos. O primeiro, encontro no livro A Garota da Banda, da musicista, artista visual e estilista americana Kim Gordon (mais conhecida como baixista do Sonic Youth):

Quando conheci Jutta Koether, ela era editora e redatora na revista Spex. Ela estava me entrevistando e ao Thurston durante a nossa turnê europeia do Daydream Nation, e pareceu confusa pelo fato de que o Sonic Youth, conhecido como uma espécie de banda de punk rock, usaria a ilustração da vela de Gerhard Richter na capa do disco. Para a Alemanha, Gerhard era, e ainda é, seu principal artista contemporâneo, mas para Jutta parecia que estávamos fazendo uma decisão artística banal e orientada pelo status quo. Após semanas dando entrevistas, onde a maioria dos jornalistas fazia as mesmas três ou quatro perguntas, era ótimo ter alguém que nos desafiasse. [p. 277; grifo meu]

Todos questionando as mesmas questões, registrando as mesmas respostas e, plausivelmente, redigindo as mesmas matérias. O trecho faz pensar não só sobre o esquematismo e a falta de criatividade das pautas, mas também sobre o que espera de nós o entrevistado: ser realmente interpelado pelas perguntas, não só enunciar reações decoradas, mas de fato expressar-se.

O segundo efeito de manada está na reportagem “Padre Cícero sem Perdão“, de Adriana Negreiros, publicada na piauí nº117:

Em vez de devolver as ordens à Cícero — e formalmente reabilitá-lo —, o Vaticano sugeria a realização de uma “reconciliação histórica”. Era tudo que Roma podia oferecer. Dom Fernando leu a correspondência, escondeu-a e, após três meses de sofrimento solitário, enviou-a por e-mail para Forti. A psicóloga conta que o sacerdote estava em pânico. “Ele temia que a imprensa caísse matando em cima”, lembrou. Para ela, o mais aconselhável era não titubear. Foi o que disse ao bispo: “Dom Fernando, a imprensa é burra. Os jornalistas repetem a nossa fala. Se o senhor afirmar que o pedido de reabilitação foi negado, dirão isso. Mas, se disser que Roma fez o que sempre quisemos, eles vão na onda“. [p.41; grifo meu]

O famoso problema do jornalismo declaratório: o repórter recolhe aspas e lava as mãos. Pelo que parece, pelo que diz a psicóloga citada, aceitamos tudo, qualquer versão nos calha como verdade.

recomeço.

Posted on Leave a commentPosted in Sem categoria

Há uns cinco anos atrás, eu produzia um blog sobre jornalismo — o duanneribeiro.blogspot.com — iniciado pouco depois de que eu me formei, mantido ao longo dos primeiros trabalhos profissionais na área e depois abandonado. Este blog retoma não só alguns posts desse outro mais antigo, mas o seu espírito — se propõe a discussões sobre jornalismo. Além disso, será um espaço de curadoria de informação; trarei para cá pequenas listas das coisas que leio. Funcionará, pra mim, como um momento de ruminar a informação que consumo; espero que funcione para vocês como curiosidade e atualização.

O Telefone e Proust

Posted on Leave a commentPosted in História da Mídia

Trecho de O Caminho de Guermantes, de Marcel Proust, em que o narrador trata de uma ligação telefônica que faz a sua avó, de Donciéres a Paris. A experiência é naturalmente muito distante da nossa, ele precisa se deslocar ao posto telefônico, precisa contatar as telefonistas, que fazem efetivamente a conexão de um ponto a outro (e permanecem ouvindo a conversa), etc. Mesmo assim o que talvez em um primeiro momento fosse encarado com fascínio, já aí tem um toque de enfado — o que antes era impensável, hoje é até lento demais. Em se pensar do nosso ponto de vista, não só “muito demorado, muito incômodo”, como arcaico; e estamos em um mundo de tal maneira continuamente e intensamente conectado que a distância não é só “supressa” como em muitos sentidos inexistente. De maneira que a metáfora final, que permite entrever no contato feito pelo telefone o que nos resta depois da morte, não é sequer pensável. Entretanto, que outra metáfora existencial esse estado hiperconectado nos deixa inventar?

O telefone, naquela época, ainda não era de uso tão corrente como hoje. E, no entanto, o hábito leva tão pouco tempo para despojar de seu mistério as forças sagradas com que estamos em contato que, não tendo obtido imediatadamente a minha ligação, o único pensamento que tive foi que aquilo era muito demorado, muito incômodo, e quase tive a intenção de fazer uma queixa. Como nós todos agora, eu não achava suficientemente rápida nas suas bruscas mutações, a admirável magia pela qual bastam alguns instantes para que surja perto de nós, invisível mas presente, o ser a quem queríamos falar e que, permanecendo à sua mesa, na cidade onde mora (no caso de minha avó era Paris) sob um céu diferente do nosso, por um tempo que não é forçosamente o mesmo, no meio de circunstâncias e preocupações que ignoramos e que esse ser nos vai comunicar, se encontra de súbito transportado a centenas de léguas (ele e toda a ambiência em que permanece mergulhado) junto de nosso ouvido, no momento em que nosso capricho o ordenou. E somos como o personagem do conto a quem uma fada, ante o desejo que ele exprime, faz aparecer num clarão sobrenatural a sua avó ou a sua noiva, a folhear um livro, a chorar, a colher flores, bem perto do espectador e no entanto muito longe, no próprio lugar onde realmente se encontram. Para que esse milagre se realize, só temos de aproximar os lábios da prancheta mágica e chamar — algumas vezes um pouco longamente, admito-o — as Virgens Vigilantes cuja voz ouvimos cada dia sem jamais lhes conhecer o rosto, e que são nossos Anjos da Guarda nas trevas vertiginosas a que vigiam ciumentamente as portas; as Todo-Poderosas por cuja intercessão os ausentes surgem a nosso lado, sem que seja permitido vê-los: as Danaides do invisível que sem cessar esvaziam, enchem, se transmitem as urnas do sons; as irônicas Fúrias que, no momento em que murmuramos uma confidência a uma amiga, na esperança de que ninguém nos escuta, gritam-nos cruelmente: “Estou ouvindo”; as servas sempre irritadas do Mistério, as impertinentes sacerdotisas do Invisível, as Senhoritas do Telefone!

E, logo que o nosso chamado retiniu, na noite cheia de aparições para a qual só os nossos ouvidos se inclinam, um ruído leve — um ruído abstrato — o da nossa distância supressa — e a voz do ser querido se dirige a nós.

É ele, é a sua voz que nos fala, que ali está. Mas como essa voz se acha longe! Quantas vezes não pude escutar senão com angústia, como se ante essa impossibilidade de ver, antes de longas horas de viagem, aquela cuja voz estava tão perto de meu ouvido, eu melhor sentisse o que há de decepcionante na aparência da mais doce aproximação, e a que distância podemos estar das pessoas amadas no momento em que parece que bastaria estendermos a mão para retê-las. Presença real a dessa voz tão próxima na separação efetiva! Mas antecipação também de uma separação eterna! Muita vez, escutando assim, sem ver aquela que me falava de tão longe, me pareceu que aquela voz chamada das profundezas de onde não se sobe, e conheci a ansiedade que me havia de angustiar um dia, quando uma voz voltasse assim (sozinha e não mais presa a um corpo que nunca mais veria) a murmurar a meu ouvido palavras que eu desejaria beijar de passagem sobre lábios para sempre em pó.